Implicações da economia de dados e das plataformas digitais são debatidas pelo CPCT no X Fórum Comunicação e Trabalho

Imagem em plano aberto da plateia do X Fórum, com mesa de debates ao fundo. Comunicação e Trabalho

A regulação das plataformas e do uso da inteligência artificial no Brasil está na agenda pública nacional em 2025 e no radar das pesquisas científicas que se preocupam não somente com os aspectos técnicos do uso das tecnologias, mas com suas consequências culturais e políticas para a vida em sociedade. Sob essa chave analítica, o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) realizou, no dia 21 de agosto, o X Fórum Comunicação e Trabalho, evento integrante da programação do 48º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que debateu os “Impactos da plataformização e da datificação: comunicação, trabalho, infraestrutura, soberania”

Na programação, pesquisadores e ativistas se debruçaram sobre as consequências econômicas e políticas da centralidade das empresas de plataformas para o sistema produtivo contemporâneo. Na abertura institucional do evento, as mensagens de boas-vindas e introdução ao debate ficaram a cargo da professora Clotilde Perez, diretora da ECA-USP; da professora Margarida Kunsch, representando a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), de Anderson Vinicius Romanini, chefe do Depto. de Comunicações e Artes e da professora Roseli Figaro, coordenadora do CPCT. 

Mesas de debates aprofundam pautas

Mesa “Economia digital, infraestrutura e soberania”, com Marcos Dantas, Nina da Hora, Ana Flávia Marques e Fábio Tozi, com mediação de Cláudia Nonato (ao centro)

Na primeira mesa de debates, intitulada “Economia digital, infraestrutura e soberania”, a tônica das discussões girou em torno de como a dependência tecnológica das plataformas é uma expressão do neoliberalismo econômico, o qual precisa do enfraquecimento das soberanias nacionais para se expandir. A primeira palestrante a tecer suas considerações foi Nina da Hora, cientista de dados e ativista na defesa da ética algorítmica. Nina se debruçou sobre a problemática da opacidade dos dados no contexto da inteligência artificial e explanou ainda sobre o projeto de governança multissetorial da IA no Brasil.  

Marcos Dantas, professor titular aposentado da Escola de Comunicação da UFRJ, ex-Diretor do Centro Internacional Celso Furtado para o Desenvolvimento, foi o segundo palestrante da mesa. Ele se dedicou a apresentar os motivos para a defesa da soberania digital brasileira e para isso fez um apanhado histórico sobre a privatização das telecomunicações no Brasil a partir dos anos 1990 e apresentou dados sobre a concentração de riqueza das big techs. 

A pesquisadora do CPCT e diretora do Instituto Lula, Ana Flávia Marques, apresentou resultados de sua tese de doutorado que investigou o processo de plataformização da Rede Globo. Ana Flávia defendeu que as big techs sejam consideradas plataformas de comunicação e de trabalho, pois elas se valem da mediação com os usuários para capturar dados e com eles dirigem toda a cadeia de produção de valor no capitalismo contemporâneo por meio de suas estruturas. 

Encerrando a mesa, Fábio Tozi, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trouxe as reflexões de Milton Santos para tratar das encruzilhadas históricas em que se deve pensar a soberania nos dias atuais, levando-se em consideração que as empresas de plataforma têm ramificações globais e não intentam se dobrar pelas leis e normas nacionais. Dessa forma, para analisar as plataformas digitais é preciso levar em consideração uma economia política territorial que também se ampara na captura de dados de localização. 

Mesa “Comunicação e trabalho no contexto da economia digital de dados: impactos e perspectivas”, com Carlos Ryal, Luís Henrique Gonçalves, Ronaldo Matos e Rafael Grohmann (por vídeochamada), com mediação de Naiana Rodrigues

Na segunda mesa de debates, realizada na noite do dia 21 de agosto, o tema Comunicação e trabalho no contexto da economia digital de dados: impactos e perspectivas” foi discutido por outros quatro participantes. A abertura dos debates ficou por conta do professor da Universidade de Toronto, no Canadá, Rafael Grohmann, que há muito tempo se dedica a pesquisar as implicações da plataformização. Na ocasião, Grohmann compartilhou reflexões provenientes de uma pesquisa realizada com trabalhadores da indústria criativa e os dilemas decorrentes do uso de inteligência artificial na indústria cultural. O pesquisador esmiuçou o caso hollywoodiano e a greve de roteiristas, atores e outros trabalhadores do cinema ocorrida em 2023. 

Na sequência, o artista Carlos Ryal teceu considerações sobre os enfrentamentos diários vividos pelos artistas digitais com a popularização de ferramentas de inteligência artificial. Ryal participou do Fórum representando a União Democrática dos Artistas Digitais (Unidad), organização que defende os direitos dos artistas e que está atenta politicamente ao Projeto de Lei 2338, mais conhecido como o PL da IA. 

Representando o jornalismo independente, Ronaldo Matos, jornalista do “Desenrola e não me enrola”, explanou sobre as formas de resistência do jornalismo de causa social frente às grandes organizações digitais. Ronaldo reforçou a necessidade de se ampliar o jornalismo de soluções e a educação midiática como saídas para a construção de uma comunicação mais cidadã. 

Finalizando a mesa de debates, o pesquisador do CPCT e pós-doutorando na ECA-USP, Luís Henrique Gonçalves, explicou de forma didática o ciclo de produção e captação dos dados gerados pelos jornalistas e comunicadores quando estes usam as plataformas digitais para realizar suas atividades de trabalho. A apresentação de Luis adianta reflexões resultado do desenvolvimento da pesquisa Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores: os embates com as determinações das empresas de plataformas”, em realização desde 2023 pelo CPCT-ECA-USP com apoio da Fapesp e do CNPq. 

No encerramento do X Fórum Comunicação e Trabalho, a coordenadora do CPCT-ECA-USP, Roseli Fígaro, reforçou que os trabalhadores precisam ser os donos das informações produzidas durante o processo de trabalho, pois o ato de trabalhar gera conhecimento, o qual está sendo apropriado pelo capitalismo por meio das plataformas. E para tal, frisou Roseli Fígaro, é preciso que os trabalhadores assumam a primazia dessa luta.

Para ter acesso ao conteúdo completo do X Fórum Comunicação e Trabalho acesse o link do canal da ECA-USP no Youtube.

III Workshop Datificação da atividade de comunicação e trabalho

 

Nos dias 22 e 23 de agosto, o CPCT realizou também o III Workshop Datificação da atividade de comunicação e trabalho, uma ação interna do grupo que reúne os pesquisadores do Brasil e da Colômbia que integram a pesquisa “Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores: os embates com as determinações das empresas de  plataformas”. 

O Workshop é um momento de troca de experiências, de apresentação de resultados da pesquisa e de planejamento das novas atividades e etapas empíricas. Neste terceiro Workshop, foi apresentada uma prévia de um relatório geral que traz um conjunto de informações produzidas a partir de pesquisa documental e análise de dados sobre as organizações Microsoft, Alphabet e Meta, especialmente suas plataformas e subsidiárias. A expectativa é lançar o relatório final ainda em 2025. 

Outra atividade apresentada diz respeito à análise do discurso dos termos de uso e de privacidade das plataformas Youtube, Google, Instagram, Facebook, Whatsapp e Tik Tok. Quando finalizadas, estas análises darão origem a um livro e mostrarão como as plataformas organizam os sentidos em torno da captura dos dados dos usuários, imprescindíveis para a operação das próprias plataformas. 

Destaca-se ainda o desenvolvimento de uma aplicação pela equipe de apoio técnico da pesquisa para a nova etapa empírica da investigação. Essa ferramenta viabilizará a coleta de dados técnicos produzidos pelos comunicadores durante a realização de suas atividades de trabalho, os quais são importantes para o desvendar do processo de datificação das plataformas. 

A ferramenta foi apresentada durante o Workshop para os pesquisadores e para os comunicadores que participaram da etapa de entrevistas da pesquisa. Estes, em particular, serão colaboradores imprescindíveis para a realização da coleta técnica de informações do trabalho. Por conta disso, os comunicadores foram convidados a conhecer mais os processos metodológicos da pesquisa em uma reunião onde foram apresentados também os principais resultados da análise das entrevistas das quais eles participaram. 

Dessa maneira, o CPCT estabelece uma relação de transparência e de cooperação com os sujeitos da pesquisa, possibilitando que esses trabalhadores da comunicação compreendam como ocorre a datificação de suas atividades de trabalho. 

Esses dados de investigação serão articulados ainda com a análise das patentes das big techs, que podem revelar pistas sobre seus modelos de negócios, os quais são elaborados e viabilizados a partir da datificação das informações e ações de seus usuários. Também serão acrescentados elementos informativos provenientes de entrevistas com pesquisadores da área tecnológica. 

Esse conjunto de diferentes dados – técnicos, semânticos, econômicos e corporativos –  possibilitará uma triangulação e a explicação da cadeia produtiva das plataformas a partir da datificação das materialidades sensíveis dos trabalhadores. 

Confira a seguir uma galeria de imagens do III Workshop Datificação.

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