Esta tese trata da investigação do financiamento do jornalismo digital independente e alternativo no Brasil por fundações filantrópicas internacionais. Há, na contemporaneidade, um investimento crescente de recursos financeiros, bem como de recursos imateriais representados por fomentos a capacitações profissionais e outros tipos de articulações, advindos sobretudo de fundações internacionais, institutos nacionais e empresas de plataformas direcionados ao jornalismo realizado fora do circuito mainstream. Temos como premissa que o investimento de caráter filantrópico advindo das potências globais ocidentais é representativo de práticas hegemônicas com função determinada na reprodução social do valor, propagação ideológica e consequente manutenção da forma econômica, política e sociocultural capitalista, com caráter intrinsecamente imperialista. Levantamos a hipótese de que no Brasil, o jornalismo digital independente e alternativo passa por um processo de captura e reconfiguração, no qual suas práticas de organização e gestão do trabalho e da comunicação são potencialmente determinadas pelas estruturas de financiamento filantrópico. Nosso objetivo é identificar como as estratégias de investimento filantrópico impactam a constituição destas mídias e suas condições de produção, tendo como objeto particular a articulação e o financiamento especificamente proveniente de fundações privadas internacionais. Desse modo, duas questões de pesquisa mobilizaram o arcabouço teórico e empírico da tese, a saber: por quais mecanismos a filantropia captura e reconfigura a produção jornalística digital independente e alternativa? e; quais aspectos na formatação dessa produção indicam sua reconfiguração? Para respondê-las, adotamos uma abordagem empírica multimétodos que consiste, primeiramente, no mapeamento de informações online. O segundo método destacado é a identificação dos financiadores e a respectiva análise de seus bancos de dados públicos a partir de um recorte temporal entre os anos de 2020 e 2023. Foram, então, selecionados para o estudo as seguintes instituições: Open Society Foundations, Ford Foundation, Luminate, Oak Foundation e Fundação Heinrich Böll. Para complementar o levantamento, foram realizadas entrevistas semiestruturadas de caráter institucional com representantes tanto dos financiadores quanto dos favorecidos. Os resultados apontam a existência, no período, de 93 projetos distribuídos em 40 organizações, totalizando 17 milhões de dólares investidos. Observou-se, ainda, que estes valores são subestimados, tendo em vista a perda do rastro de investimento quando não há dados públicos ou quando são repassados para organizações intermediárias. Identificamos a existência de uma rede de poder, formada a partir da articulação conjunta entre os financiadores. A captura e a reconfiguração do jornalismo operam por meio da normatização e padronização de práticas e discursos, bem como da distribuição de papéis entre as instituições favorecidas, com atenção particular aos intermediários de financiamento e de articulação. Há, como efeito desse processo, a naturalização da formas sem fins lucrativos e crescente onguização do jornalismo. Concluímos que a reconfiguração do setor é mobilizada por estratégias filantrópicas, mas não apenas, e compõe parte de um movimento maior de plataformização do jornalismo.