Pesquisadora do CPCT prepara volta para o Brasil

É preciso deixar de lado a idealização do que é estudar fora do Brasil e destacar as contradições que influenciam este processo“, afirma a pesquisadora Camila Acosta Camargo, que integra o CPCT.

Após uma estadia de seis meses no Reino Unido, ela começa a arrumar as malas para retornar ao Brasil.

Doutoranda na ECA-USP, Camila Acosta Camargo aborda, na entrevista a seguir, a experiência do doutorado sanduíche realizado junto à Universidade de East Anglia, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Como você avalia a realização do seu doutorado sanduíche?

A oportunidade de realizar o doutorado sanduíche surgiu com o edital CAPES-PrInt, que foi essencial para viabilizar todos os custos de passagem, moradia e assistência médica. Os custos no Reino Unido são muito altos, ainda maiores no momento atual com os impactos da guerra na Ucrânia e a consequente crise energética. As bolsas brasileiras necessitariam passar por um reajuste para melhor apoiarem os alunos em todos os custos de vida no exterior. Todavia, mesmo neste cenário, a bolsa foi o principal fator que viabilizou a minha estadia, e de tantos outros estudantes de doutorado, e por isso sou imensamente grata. Ao longo dos últimos seis meses eu tive uma experiência excelente, motivada pelo acolhimento da Universidade de East Anglia e do professor Martin Scott, que me recebeu como pesquisadora visitante no Departamento de Desenvolvimento Internacional. A disparidade econômica em relação às universidades brasileiras permite que o jovem pesquisador na Europa tenha acesso a recursos que apoiam o melhor desenvolvimento de suas pesquisas. No departamento em que fui recebida, todos os doutorandos contam com uma estação de trabalho própria, computador com duas telas sem restrição de acessos e horários. O campus é bem equipado com atividades acadêmicas e de lazer. Mesmo assim, destaco que as universidades do Reino Unido e, particularmente, a Universidade de East Anglia, têm vivido os impactos da crise econômica e das mudanças do mundo pós-pandêmico com a diminuição de estudantes em sala de aula. Como resultado, a universidade anunciou um déficit de 30 milhões de libras e a previsão de intensos cortes de recursos e de pessoal. Alunos, professores e trabalhadores administrativos têm promovido greves e manifestações contra as políticas de cortes e a má gestão dos recursos por parte do alto escalão. Nas últimas semanas, o vice-chancellor [cargo equivalente ao de reitor] pediu demissão em meio à crise. Muitos dos meus colegas estão frustrados e preocupados com seu futuro na universidade. Bolsas foram cortadas e orientadores podem ser demitidos. Vale dizer que os colegas de departamento são, em sua maiores, jovens que, assim como eu, vêm de países do sul global e dependem financeiramente das bolsas e das oportunidades de trabalho na universidade. Como alguém que acompanha a mesma crise nas universidades brasileiras, ainda mais em nosso campo da comunicação, o sentimento é de que a precarização no capitalismo contemporâneo não consegue ser freada nem mesmo nas grandes potências mundiais. É neste cenário que enxergo a minha experiência no doutorado-sanduíche. Seria impossível promover uma avaliação apenas dos aprendizados para a pesquisa, sendo que nosso olhar para a investigação é atravessado por estes fatores externos e influenciado por eles. Nada disso, no entanto, deixou a experiência menos rica. Apenas considero importante deixar de lado a idealização do que é estudar fora do Brasil, e destacar todas as contradições que influenciam este processo. 

Que implicações o doutorado-sanduíche trouxe à sua pesquisa?

Posso dizer que a perspectiva para o meu objeto de pesquisa passou por uma grande modificação desde que cheguei à Unversidade de East Anglia. Em especial no que diz respeito ao pensamento metodológico, me aprofundei na busca por estabelecer um desenho de pesquisa de campo que ajude com efetividade a responder os problemas de pesquisa. Notei que meu problema de pesquisa segue o mesmo, com uma coerência às propostas desde o projeto inicial apresentado ao PPGCOM [Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação], mas a forma de aborda-lo é nova, e estou mais confiante com os objetivos que busco atingir com a coleta e análise dos dados. Mesmo à distância, pude avançar com a realização de entrevistas, tanto com entrevistados do Brasil quanto do Reino Unido. Tendo em vista que estudo fundações internacionais, a experiência de visitar a Europa agregou tanto do ponto de vista teórico quanto empírico. Nas abordagens teóricas também pude conhecer novas perspectivas. A literatura de estudos de mídia, comunição e ciências sociais de maneira ampla ainda é muito dominada pelo pensamento do norte global, mas particularmente no Departamento de Desenvolvimento Internacional há uma intencionalidade em ampliar estes olhares, em particular a partir do viés da decolonização. O mergulho na literatura de lingua inglesa foi ainda mais essencial para destacar o valor das pesquisas nacionais e latino-americanas de forma ampla. Nossos estudos são muito críticos, temos objetos de pesquisa pertinentes e grandes autoras e autores que merecem mais destaque na produção científica internacional. A barreira de linguagem e o modelo científico atual são, infelizmente, entraves muito fortes que limitam que o resto do mundo conheça o nosso trabalho. 

Qual a sua impressão sobre as pesquisas em comunicação na Europa?

Eu não consigo falar em profundidade sobre o campo da comunicação de forma ampla, porque estive alocada no Departamento de Desenvolvimento Internacional, que tem um foco em diferentes aspectos das ciências sociais. Aqui, há muitos doutorandos que advêm de distintos campos da ciência, como a antropologia, a economia ou mesmo das ciências exatas como a engenharia. Desenvolvimento Internacional é uma área do conhecimento que nem sequer existe no Brasil como aqui, o que para mim foi muito interessante de observar, pois representa uma visão bastante “western”, como eles mesmo entendem, para os países do terceiro mundo. Meu contato com os estudos de comunicação aqui aconteceram, primeiramente, por meio de um curso que participei sobre análise crítica do discurso. O curso tem como grande referência os estudos de Norman Fairclough, linguista britânico. A despeito da riqueza teórica do autor, aqui destaco um exemplo de como a literatura britânica (ou de lingua inglesa) ainda é hegêmonica nas abordagens  de ensino e pesquisa aqui. Em seguida, destaco também aprendizados aplicados especificamente para a minha pesquisa. Busquei, particularmente, entender melhor como conceitos de jornalismo e mídia são abordados nas teorias hegemônicas. Também busquei referências tanto do norte global quanto do sul global e do mundo oriental sobre o conceito de mídia alternativa. É inegável que uma das grandes distinções da literatura de língua inglesa é o pragmatismo. Com as devidas críticas às diversas implicações deste modelo de produção científica, compreender este método é fundamental para um jovem pesquisador que tem interesse em publicar internacionalmente. Desde o início do doutorado sanduíche mergulhar neste aprendizado sempre foi um dos meus principais objetivos e, apesar deste ainda ser um longo trajeto, já me sinto mais preparada para tentar submeter artigos em revistas internacionais. 

 

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