Pesquisa do CPCT mostra como os correspondentes internacionais percebem suas condições de trabalho

Uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (CPCT-ECA/USP) se soma a um lastro de investigações que apontam avanço da precarização dos correspondentes internacionais, uma posição historicamente marcada por prestígio e auge de carreira.  O estudo “O correspondente precarizado: mudanças laborais do repórter brasileiro no exterior” foi concluído no fim de janeiro de 2026 pela pesquisadora Maria Cleidejane Silva Esperidião, pós-doutoranda sob a supervisão da professora Dra. Roseli Figaro, coordenadora do CPCT. Os dados estão sendo processados para análise e revisão para posterior publicação e ficarão expostos em um site que já está no ar.

A pesquisa envolveu entrevistas em profundidade com 16 jornalistas, atuais correspondentes e aqueles que voltaram para o Brasil para exercer outras atividades. A metodologia também  incluiu a realização de um questionário online (survey), que obteve 41 respostas. Um censo-planilha deve ficar pronto até o fim de 2026 para servir como base de dados para novas abordagens de pesquisa.  “Há décadas, o perfil do reportariado no exterior vem mudando; agora nos interessa saber como o próprio profissional faz a leitura de seu processo produtivo e as implicações desse contexto com o texto jornalístico”, explica Maria.

O estudo se insere em uma visão crítica sobre a precarização dos jornalistas, caracterizada por alguns indicadores, como baixa remuneração, adoecimento mental e  sobrecarga de trabalho.  “Se tomarmos como exemplo os maiores jornais do país, apenas um mantém um posto fixo na capital americana. A opção das empresas tem sido contratar temporariamente freelancers por valores menores do que 10 anos atrás. Os que topam esses arranjos se sentem vulneráveis e chegam a acumular outras funções, como vendedor de lojas, cuidador de crianças e animais”, comenta a pesquisadora. “Se ser correspondente ainda alimenta o imaginário de muitas pessoas, especialmente entre os jovens em início de carreira, é preciso discutir, dentro e fora das universidades, qual é o preço desse sonho no momento em que compreender o mundo e traduzi-lo para o público doméstico se torna essencial”.

As respostas anonimizadas e as entrevistas qualitativas, quando combinadas, já revelaram os três principais indicadores de precarização presentes na cobertura internacional: a remuneração incompatível com a cidade onde mora; a instabilidade de renda; e a multifuncionalidade.

O resultado confirma o que investigações no Brasil e no mundo já revelaram: a enorme diferença entre as condições laborativas de freelancers e aqueles correspondentes empregados. “Conheci colegas que moravam em um buraco de rato, em alojamento deprimente. Ninguém se dá o direito de ficar doente”, diz um relato.  “Em 20 anos trabalhando como freelancer para veículos brasileiros, não recebi um benefício. É igualzinho ao entregador de pizza do Ifood hoje, sem direitos ou estabilidade”, revelou outra jornalista. “Eu passava o dia tentando emplacar pautas sem ter certeza de nada. Não tinha direito nem a um mínimo para pagar as contas de internet e celular”, resumiu outro.

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