Esta pesquisa foi motivada pelo fato de já em março de 2020, no início da pandemia da Covid-19 no Brasil, haver notícias sobre as difíceis condições de trabalho vivenciadas pelos comunicadores em todo o país. Com a investigação em andamento, tivemos, no dia 14 de abril, a notícia da morte do jornalista José Augusto do Nascimento Silva[1], empregado do SBT. Além dele, muitas outras vidas viriam a ser ceifadas pela doença[2]. Fatos lastimáveis como estes exigiam que soubéssemos mais sobre as condições de trabalho daqueles que atuam na área da comunicação.

Os comunicadores são profissionais que trabalham no jornalismo, na comunicação das organizações de diferentes perfis, instituições públicas e privadas, internamente ou via agências de comunicação e de publicidade, prestando serviços também a personalidades, autoridades e empresas de mídia. São esses os profissionais que buscamos para saber como eles estão trabalhando durante a pandemia da Covid-19.

O afastamento social e o home office foram indicados como ações necessárias para diminuir o impacto da infecção pelo novo coronavírus. No entanto, nem todos os profissionais da comunicação podem manter o distanciamento social.

No exercício profissional, o serviço público da informação exige, muitas vezes, a apuração do fato in loco. Ou exige a pesquisa para que se produza a informação qualificada sobre o produto e a verificação dos dados para traçar políticas de comunicação para as instituições.

Na divulgação científica, no setor de saúde, seja nos órgãos públicos ou privados, hospitais, Ministério, secretarias estaduais ou municipais ou no apoio institucional, os profissionais da comunicação estão atentos, atuantes, presentes.

 Crise no setor da comunicação

Para além da pandemia da Covid-19, os profissionais da comunicação têm enfrentado profundas mudanças no mundo do trabalho. A base sociotécnica dos meios de produção se transformou com os meios digitais e a internet. Esses eventos foram assimilados pelo mercado da comunicação na forma de ampliação da precarização do trabalho, da densificação do ritmo da atividade e do aumento das horas trabalhadas.

Ao contrário do que se imaginou no final do século XX, as maravilhas da comunicação digital e da internet causaram, pela forma da apropriação privada de seus lucros, transtornos para a classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2018), caso dos profissionais da comunicação. Empresas de notícia, agências de comunicação e de publicidade e assessorias de comunicação transformaram-se no tocante à estrutura da planta empresarial e organizacional (FIGARO et al. 2013; 2018) e, com isso, as demissões e os contratos precários aumentaram consideravelmente.

Também a maneira de monetização da informação passou por mudanças. A verba publicitária para a internet tem valorizado as formas de atuação de plataformas como Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft, entre outras. Isso faz com que as empresas tradicionais de mídia se tornem dependentes da lógica da visibilidade e da circulação configuradas por esses conglomerados de plataformas.

Assim, a pandemia da Covid-19 encontra o setor da comunicação em profunda crise, com um quadro bastante dramático para o mundo do trabalho dos comunicadores: demissões, contratos precários, rebaixamento salarial, densificação do trabalho, todo tipo de estresse, além do quadro de incertezas sobre o futuro.

Nesse cenário de crise pandêmica e de crise pelas transformações no mundo do trabalho, a informação é ainda mais essencial à vida e ao bem-estar das pessoas. Os profissionais da comunicação são destacados para atuar nessa área essencial, prestando serviços na produção de informações relevantes em todos os âmbitos para que a população possa tomar atitudes em defesa de sua saúde física e mental.

São esses os motivos que nos fizeram propor a pesquisa cujos resultados passamos a apresentar.

 

Roseli Figaro

Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho

 

[1] A notícia pode ser consultada em: PERLINE, G. Antes de morrer por coronavírus, jornalista do SBT acusou emissora de negligência. Notícias da TV. Disponível em:

<https://noticiasdatv.uol.com.br/mobile/noticia/televisao/antes-de-morrer-por-coronavirus-jornalista-do-sbt-acusou-emissora-de-negligencia-35657>. Acesso em: 15 abr. 2020.

[2] Ver notícias em: PITOMBO, J. P. Jornalista de afiliada da Globo no Maranhão morre. Folha de S. Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/jornalista-de-afiliada-da-globo-no-maranhao-morre-de-covid-19.shtml>. Acesso em: 22 abr. 2020.; REDAÇÃO G1 RN. Jornalista de 74 anos morre com coronavírus em Mossoró. G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2020/05/02/jornalista-de-74-anos-morre-com-covid-19-em-mossoro.ghtml>. Acesso em: 2 maio 2020.; G1 RIO. Jesus Chediak morre de Covid-19 no Rio de Janeiro. G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/08/jesus-chediak-morre-de-covid-19-no-rio-de-janeiro.ghtml>. Acesso em: 8 maio 2020.

Buscar